não se pode amar demais

não se pode amar demais.

o dé sempre diz (talvez às vezes, ou algumas vezes, mas a invenção é minha, então: licença poética! esse dé que eu também invento) que não existe “te amo muito”. como se o “te amo” fosse assim imensurável, ou a expressão do imensurável, e não comportasse qualquer noção de quantidade ou intensidade vinculados. o “muito” é a sobra do que não tem medida.

e eu acho que o “muito” é aquela sensação que fica insatisfeita e angustiada no peito – no peito mesmo, quase física – quando a gente está sentindo alguma coisa além do que consegue expressar. o tão bom que quase dói, ou dói mesmo. o ter em face do seu oposto complementar e inevitável: o não ter, ou o perder.

de semelhantes, a palavra e o sentimento têm esse lugar de sobra: incompletos e insuficientes. incompreensíveis eles permanecem ali, um para o outro, embora nunca nunca coincidentes, afinal. querer ser um sem nunca poder, o impossível. a tentativa de viver o amor e conformá-lo é um desespero bonito.

eu sempre digo que não existe o desamor, o sentimento que de fato se desfaz. eu tolero, no máximo, a ideia do não-amor, mas um padre muito bom me convenceu ainda menina que esse segundo também está fora de cogitação na nossa humana condição.

eu não abro mão da minha história, se você passou por aqui, de um jeito ou de outro, aqui ainda está. tanta coisa é “muito” na falta de precisão possível.

não se pode amar de menos.

22 de fevereiro de 2007

Era o reinado da beleza.
A tua franja pesada escorregando na pele escura e se detendo ora nos cílios, ora nos dentes. Os seus olhos através dos fios, permanecendo em mim.
Eu não te recompunha porque era no desarranjo aquela intimidade.
Como a natureza te fez bonita, toda linhas de traçado espesso – em movimento. As imprevisíveis combinações de “instantes-borboleta”.
Nem me passou pela cabeça prender-te as asas entre os dedos. Eu sei que não há nada que se possa verdadeiramente reter.
E não há nenhuma segurança em amar.

 

25 de fevereiro de 2005

por motivos que expliquei ou tentei explicar em um post anterior, resolvi trazer os textos antigos pra cá, deixar tudo juntinho, encarar a vergonha, contemplar o passado que nunca deixa, ele também, de viver aqui e agora. vou buscar um, ou mais por dia, e trazer quando houver correspondência de datas: dia e/ou mês. esse será o meu pretexto e a minha brincadeira. 😉

o nosso último beijo foi igual ao primeiro

É nessa solidão interna que mora a sua companhia. São inúmeras situações em que estou só, em que estou com você, em que estou dupla de mim. Dupla de mim sou o esforço da razão em barrar qualquer fluxo da fantasia:
Nas sua doçura não ler amor, mas fragilidade.
Na sua procura não ler saudade, mas momentâneo e recorrente tédio do cotidiano.
No teu desejo só ler desejo.
Na tua confusão ler a força das tuas escolhas vencendo.
As escolhas são enxurradas.
Nossa última conversa não parecia uma última conversa. Mas foi.
Nosso último beijo não foi igual ao primeiro. Isso fui eu que imaginei.

posted by tereza @ 16:12

alumbramentos

esta casa está vazia

LIQUIDAÇÃO

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.

(C.D.A.)

a epígrafe/epitáfio: a postagem última (e por fim pra sempre primeira), de Guilherme Freitas, em um blog antigo, coletivo e findo.

águas passadas movem moinhos

recolher meus cacos “literários” por aí. como quem não pode com a ideia dos móveis antigos da avó indo embora tão facilmente, me deixa reter alguma coisa deste mundo, neste mundo: “Dai pois a César o que é de César”. como quem já sabe de longa data que a joia de família é a bijuteria de pieguice impossível, que mais fala ao coração.