19 de outubro de 2005

nos poemas de Adélia Prado cabem, a um mesmo tempo, a minha espiritualidade difusa e o meu amor doente.

Poema começado no fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

house.tree.person

eu fui criada em um catolicismo nada rigoroso, mais bem da verdade em uma “religiosidade holística” que poderia ter sua máxima no já clichê “há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia” (livre e leviana citação, que escutei em casa boa parte da infância e adolescência). pronto, nessa frase cabe quase tudo.

respeito as crenças alheias e estou, eu também, inundada das minhas próprias. e ainda acho difícil que alguém passe por essa vida sem nunca ter tido uma experiência transcendente, o além-eu. isso é o tempo todo, chame como quiser.

isso dito, não tenho e não sei se terei um dia alguma religião, mas não posso acreditar em nada que esteja além da vida, antes de estar profundamente ligado à vida.

pra mim, ou deus está aqui agora e sempre e no outro, ou não está. se há outra vida, eu não conheço. nesta aqui, eu ainda estou: i believe in life.

peguei a foto no post da lola sobre a manifestação dos ateus americanos, em Washington DC. achei o cartaz simplesmente justo.

saudade

hoje sonhei com uma morte que quero muito evitar, e que talvez por isso mesmo não pare nunca, há anos, de me assombrar. foi um sonho ruim, não poderia ser diferente, mas não foi só isso.

tentei fazer um chá às pressas para que você se sentisse melhor, e as minhas mãos trocadas derrubaram toda a água fervente em uma vasilha com água suja, na pia. não havia tempo para o chá, eu entendi.

corri de volta até a sala onde você terminava de se recostar, e te beijava de um jeito desajeitado, em diferentes e descobertas partes do corpo. não encontrava um gesto suficiente até parar nas suas mãos, na sua mão. e tive, pela primeira vez, a força e generosidade de forjar uma certeza para o outro.

apertei a sua mão bem forte para te dar a segurança, que nem eu mesma jamais tive e não sei se terei, de que será suave e de que o depois será um lugar bem bonito, que eu mesma povoei com as melhores coisas que tenho em mim, e que me foram dadas por você.

as cartas

Pina, eu nunca quis evocar os mortos. quando era pequena eu fechava bem forte os olhos diante dos meus fantasmas, e negociava: “eu te respeito, você me respeita, portanto, vá embora”. sempre deu certo, eu nunca soube se eles alguma vez estiveram por lá. se sim, devem ter ficado muito convencidos ou comovidos com os meus argumentos. eu não tenho medo da sua volta e nem dor pela sua partida. eu te fiz pássaro, pluma, dente-de-leão, semente, vento, nada. você foi embora evaporando, suave suave, nem gente você é mais. nem monstro, impossível. é só gente e monstro que eu temo. por outro lado, é de gente que eu mais preciso e por isso gosto tanto das cartas, sobretudo das que não escrevi. e estou gostando tanto de ficar sob o seu olhar quieto, acolhedor da feiúra e fazedor de beleza.

correspondência

eu tive oportunidade de ver uma montagem dela, Pina, embora já sem sua presença física, no ano em que ela se foi, 2009.

estava muito cansada, e o cansaço pode ser um cruel fazedor de zumbis, ou quase. foi uma luta resistir ao Cafe Müller e acho que mais ainda, precisamente, porque tinha tudo a ver (ou sentir) com o meu estado.

e eu até questionei a experiência, de que me valeu se foi tanta a dificuldade? de que me valeu se não pude disponibilizar todos os meus sentidos? mas até os bailarinos podiam semicerrar os olhos!

as imagens voltam muitas e muitas vezes. eu sendo cafe müller e desejando ser a sagração da primavera.

hoje, acho que foi realmente insubstituível. reconheço o legado das sensações para as quais não tenho expressão melhor do que um amontoado de dizeres abstratos e insuficientes: aquela espécie de sonambulismo, o automatismo de alguns gestos, os gestos ainda assim fugindo do controle – desculpe, seu organismo não te permite ser um autômato -, não só pelo esvaziamento ou questionamento do sentido, mas também por causa do amor, por causa da vida, inevitável. da memória da vida, por causa da permanência mesmo na morte, a marca de tudo em tudo, enfim…

na Sagração da Primavera havia mais energia em qualquer ínfima parte do corpo de qualquer única pessoa no corpo de baile do que no meu corpo todo. o que mais lembro são as cores, a cor entre as cores, e a vontade de deitar na terra: eu gosto de pôr a mão.

primeiro eu pensei na minha dança como cura e logo desacreditei. eu também queria dançar, mas só como quem diz: “o que mais podemos fazer?”