23 de maio de 2005

see you soon

Ana abriu os olhos e não estava em casa. A noite anterior não tinha terminado ainda. Nem se sentia igual, nem isso era estranho porque já havia construído aquele momento-espaço muitas vezes em imaginação.

Estava emaranhada nos cabelos dele. Como pode ter esquecido de sentir o cheiro?
Como eram os cabelos dele? Essas coisas que não se diz…
Podia estar todo tempo no cuidado e na carícia dos fios, mas não era necessário, os pensamentos é que estavam embaraçados.
Se ela fosse assim outra pessoa, gostaria dela?
Estava muito emaranhada nos cabelos dele e não se sentia sufocada, porque era macio.
Uma trama espiralada de vontade e contravontade.
A ponta do barbante que deveria estar amarrada na sua cintura estava equivocadamente presa ao coração – que estúpida tinha nascido – toda vez que a outra ponta tensionava o fio, denunciando uma saída do labirinto, seu peito apertava e doía.
Se ele também abrisse os olhos ela teria que ir embora – cheios d’água.
Queria demorar ali um pouco mais antes de começar a viver de novo.

as horas

Sábado, Maio 17, 2003

Querido,
Estou tão cansada que quase não posso alegrar-me em ver-te. Minha cama é um bálsamo, o calor regenera minhas feridas.
Abro um espaço se você quiser deitar. Prefiro que fique quieto ou diga coisas inimagináveis, mas sérias e pouco perturbadas.
Gostaria de poder me surpreender com um gesto… Isso já aconteceu, ternura é um sentimento raro.

posted by Tereza at 2:47 PM

as horas

márcio yonamine, estou aqui refazendo essa história, que também é sua quando quiser. e mesmo sem querer. que mágica embaralhar as datas no truque do reconto, não é!? te escrevo novas e velhas mensagens.

Sábado, Maio 31, 2003

sra. dalloway,

se me avisasse antes que vinha, eu teria arrumado a bagunça e preparado o quarto com lençóis mais frescos. teria aberto todas as janelas que ultimamente tenho mantido cerradas por causa do frio e outras inseguranças. poderia ter preparado um banho, mas não sei que óleos e bálsamos costuma usar; ficaria por sua conta. mas repentina assim, nem pude avisar que o sofá em que está deitada é duro e incomoda o cóccix e que não tenho ainda vasos bonitos para as suas flores escandalosas. mas se ficar um pouco mais, posso preparar um café diferente que aprendi por aí, um café com quase gosto de café.

posted by Marcio at 10:43 AM

16 de maio de 2005

enquanto seu Tempo não vem eu corro o presente e recorro ao passado.

INVERNO

Ana abriu os olhos, ainda bem que lá fora não havia silêncio absoluto, os pensamentos ecoavam insistentes apenas no espaço pequeno e grande da sua caixa craniana.
A sua imagem no espelho não era bonita como no sonho. O rosto estava inchado e o corpo era magro ou gordo? Os corpos são mais bonitos em movimento e quando se tocam. Era por isso então que ela sentia tanto frio?
Longas horas se arrumando cuidavam que alguma graça pudesse surgir ao longo do dia, surpreendente aos olhos de alguém.
Havia uma lista de esforços diários a serem cumpridos.
Ficaria exposta na vitrine da rua, era de gosto aquele jeito de se arrumar(?), queria muito que alguém comprasse.
Como era mesmo aquela música que falava sobre isso?
Se tudo é natural por que dói tanto?

O menino no sonho tinha muitos rostos, melhor apagar todos? Trazia alguma coisa nas mãos e as próprias mãos, uma esfera brilhante e frágil, núcleo duro de um coração, qualquer?
Mãe, isso passa? E não sabia se era capaz de acreditar na resposta. Voz macia a de mãe.
Gostaria de estar pensando em outra coisa quando se lembrou:“há algo que jamais se esclareceu, onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei…”

 

as horas

Sábado, Maio 31, 2003

Querido,
Comprei (eu mesma) flores pra você.
Não é uma recusa, o gesto veio antes do oferecimento.
São girassóis escandalosos. Tencionava te causar uma alegria estupidamente feminina!
Tomei a liberdade de enfeitar sua casa e aguardei o instante da sua chegada.
Fechei os olhos (para aguçar outros sentidos). Foi longa a espera.
Adormeci.

posted by Tereza at 9:46 AM

as horas

Quarta-feira, Maio 28, 2003

sra dalloway,
vou eu mesmo comprar suas flores. quais as de sua preferência? estou à toa com os crisântemos, mas envelhecem mesmo com aspirina. posso comprar rosas ou margaridas. o que te der mais felicidade, é claro. sou um pouco avesso às orquídeas por causa do cuidado e dedicação que se deve ter. mas se quiser.

posted by Marcio at 9:20 pm