as horas

Sexta-feira, Junho 13, 2003

sra dalloway,

estou de partida, vou para a africa. tentarei escrever se puder. fiz a barba e raspei a cabeça. tomei vacinas, muitas, coloridas até. minha mala é para dias, mas seu conteúdo é para anos. vou deixar aqui o endereço e o telefone mais próximo de onde ficarei até meados de junho. depois disso, não sei mais. as horas que demorei só para escrever essas linhas demonstram a turbulência do meu coração. guarde biscoitos e café para minha volta, mas se eu demorar os dê para outra pessoa. não deixe de esquecer dos cactos.

toda vez que puder, deixe o portão aberto para os cachorros passearem e certifique-se que a amoreira não adoeça. os morangos estão perdidos. queime todas as minhas cartas, vou reescrevê-las nos meus tempos ociosos. preciso ir agora. os trens são pontuais quando partimos.

posted by Marcio at 3:08 PM

16 de junho de 2005

sós

“estamos sob o mesmo teto”. sobre o ventre uma mão áspera, não foi carinho, foi acidente “secreto”. dois corpos que não se enlaçam – reta e e meia lua – um arco. “onde o sol indesejável é barrado”. não os dedos extensão das mãos tocavam os braços dele, mas a vontade extensão dos sentidos, “eu e você”. ele cheirava forte – sujo e estragado –, “sob o mesmo nós”. “dois, sóis/sob o mesmo pôr”.
ana abriu os olhos pesados, veria todos os defeitos dele, um a um, uma soma extraordinária. em números altos podia xingá-lo de:
tudo de errado com o que tinha nascido!
queria que fosse o pai do seu filho, com ele teria menino. Só podia estar louca… “(o enigma do amor)/do sol”a pele é o maior órgão do corpo humano – “onde todo contorno finda” – diferentes cores e texturas, morder até machucar – feriu o lábio inferior.
como controlar as batidas do coração? ele dormia de boca aberta. iria xingá-lo de:
babão! – se ele dissesse qualquer coisa.
saliva misturada com suor e lágrima – o olho lacrimejava de sono e raiva, “estamos/sob a mesma pálpebra”. turvo e escuro demais pra ver os defeitos dele. “agora já e ainda”.
ele dormia sem sentimento. xingaria de:
não me importo!
ele não se importava, mesmo (“intactos de aurora”).
o desejo dela não vermelho, mas preto.

20 de novembro de 2006

Canto,

Já não passo um dia sem sentir tua respiração próxima ao meu ouvido. Sussurro mentiras que também preenchem o meu coração.
É denso, quente e úmido o ar nestes campos.
Seus dedos frágeis redesenhando os meus contornos. Eu sou aquilo que você imagina.
E foi como garça que fiz esses ferimentos que demoram a cicatrizar no teu peito e barriga. As aves não têm lábios – bicos! – e com isso você não contava. Antes fossem só as minhas plumas leves arrepiando a tua pele.
Eu nunca havia voado antes, por um instante quase me esqueci de você.
Adormeci pousada num salgueiro, aninhada numa curva de galho e recoberta por uma cortina verde e fria.
Despertei com sua língua me apagando, te reconhecendo como se reconhece um criador, mas estranhando minha própria forma.
Meus braços doem muito e ninguém mais acredita nesta minha história.

Ana

as horas

querido,

sim é este momento de junho. e me assustei ainda há pouco com as baixas temperaturas e a chuva incessante que se precipitou sobre nós. hoje faz um sol conciliador desse lado da cidade, também por aí? por isso vou tomar a rua apesar dos afazeres domésticos e das tarefas escolares que ainda não terminei, mesmo com a idade que não deixa de chegar, dia a dia.

é este o momento de junho, novamente. e a crise nunca nos deixa, não é? não há desespero por aqui, mas sabe como me entristeço de forma insistente, ridícula e até irritante com a sombra ao lado, ou à espreita.

deixarei a elegância e beleza dos suéteres e carregarei os casacos pesados e mais eficientes, é preciso sobreviver. são o exoesqueleto esperando para ser casca morta mal desponte a primavera. que tudo passa sabemos que não é verdade, mas também sabemos que não é mentira. e assim estou em paz.

as horas

Quarta-feira, Junho 04, 2003

sra. dalloway,

é este momento de junho. a cidade está alvoraçada, desvairada. começa a fazer frio e todos correm para suas casas ou lugares de chocolate quente. a sra. ainda está indecisa se compra suéteres ou casacos mais caros. o desemprego está alto e não convém gastar além da conta. é este momento de junho. uma celebração para os que podem; uma desgraça para os que não. vou te beijar a testa agora, sra. dalloway, para dizer que tudo passa.

posted by Marcio at 12:08 AM

house.tree.person

a imagem foi tirada da nota do yahoo sobre o menino indiano que teria aspirado um peixe vivo. e o texto abaixo é mais um daqueles publicado há alguns anos, em outro lugar:

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Trip,

O cheiro de mar impregnou minhas roupas, assim como ao fundo de tudo que escuto persiste o som das ondas se formando e quebrando naquelas pedras. E é areia o que limpo no canto dos meus olhos quando acordo e o que faz meus pés soarem chocalhos batendo contra o chão enquanto ando.
Como todas as grandezas inapreensíveis, a materialidade e a adjetivação óbvia é tudo o que posso nomear: imenso.
Minha visão não tem esse alcance.
Estou mareada com tudo o que meus sentidos absorveram e eu não pude compreender.
Meu estômago não é o mesmo há dias, engoli um filhote de peixe inteiro que após se debater por horas dentro de mim acabou por se acostumar com as novas condições ambientes, acho. Parecia querer saltar pela minha boca, mas a palavra nunca chegou a se formar – sílabas escorregadias e salgadas deixaram o céu da minha boca infértil.
E o mais estranho é saber, sem poder ver, que ele está crescendo.
Estou tentando escolher um nome pra torná-lo mais próximo meu. Penso em nomes bíblicos masculinos, acho que anseio por uma benção.
É assustador e fascinante ser tão pequena e tão grande. Tenho um instante pérola fechado na concha do meu peito.
Seria muito mais solitário se não fosse por Matheus, Pedro, João, Paulo… E em qualquer conversa, sem que eu possa evitar, meu olhar desvia em busca de um horizonte possível.

Ana