Peter Walsh nunca vai embora

eu conheci peter walsh em suas várias formas e lugares, embora sempre nesta mesma cidade de onde remeto todas as minhas cartas. demorei a reconhecê-lo neste último encontro, ele estava grisalho e comovido. tomou minhas mãos entre as suas, quentes e macias, e me chamou bonita e mulher. logo eu que sou feia, mas tenho essa sorte e graça de confundir alguns homens: ele se vê velho, eu o vejo homem. olhos muito claros sempre me põem desconcertada, vazam e escondem, com força e presença, sem idade.

as horas

querido,

ainda não recebi qualquer notícia sua, por isso esta carta é bilhete e o sumo é o poema que vai junto, dobrado miúdo, folha única. sei que será resistente em ler, dirá para si que é mais uma atitude a um mesmo tempo sentimental e frívola. e eu não pretendo me defender. imagino que a curiosidade irá vencê-lo à beira de um lago ou no cume de alguma montanha. foi com esmero que me demorei a copiar palavra a palavra de um livro que por certo desconhece.

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Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes, do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos como certas cantoras.
Não tenho mais paciência com assuntos de quem morreu,
                                                                     quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias, meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã
ninguém mais sabe de nós.
Só a eles conto meu desvario.
Bem podia você telefonar, escrever, telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente.
Me surpreendi grunhindo, beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo. De saudade. Tudo por sua causa.
Me escreve. Ou inventa um jeito – eu sei mil –
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta – que na minha imaginação
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente para eu saudar o Embaixador.
Respondi não. Com todas as letras, não.
Só pra me divertir expliquei
que aguardo nesta mesma data visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço para estourar uma guerra
e você se ver obrigado a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionaram. Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
               Sua sempre, Beta.

 

(Carta, Adélia Prado, “A Faca no Peito”)

Peter Walsh

“Igual a uma nuvem que encobre o sol, o silêncio desce sobre Londres; e desce sobre o espírito. Cessa o esforço. O tempo ondula no mastro. Ali paramos; ali ficamos de pé. Rígido, somente o esqueleto do hábito sustenta a armação humana. E dentro desta não há nada, disse Peter Walsh a si mesmo; sentindo-se oco, completamente esvaziado. Clarissa me rejeitou, pensou. Ficou ali pensando, Clarissa me rejeitou.”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.54 – editora Cosac Naify)

lembrança

às vezes parece tão fácil esquecer o poema e o poeta, mas não devia. às vezes é realmente difícil suportar a poesia.

   Sob  o  toque da luz do dia, sob seus dedos papoulas
em  sua  primeira  floração  meu  corpo inteiro se abre é  o
amanhecer, após uma longa noite durante a qual ela anes-
tesiou  cinco  soldados – ondas  assomam,  viajam,  todos
para  amputações  esplêndidas,  opalescentes,   do centro
do  coração  até  o  ventre,  pequenos  feixes  de   agulhas,
(dois tinham morrido). As papoulas parecem quentes, opiá-
ceas, uma mancha na encosta, disse ela,  generosamente
distribuídas parecem sangue para minha delícia, por  toda
extensão da pele.

 

Cláudia Roquette-Pinto

mrs. dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores

foi um pequeno achado o grifei num livro, segredos e descobertas com palavras, compartilhados. resolvi dividir também o prazer da leitura de agora, aqui:

“Podiam ficar séculos sem se ver, ela e Peter, ela jamais lhe escrevera, e as cartas dele eram por demais áridas; mas de repente algo a arrebatava e se estivesse aqui comigo, o que ele diria? — certos dias, certas paisagens o traziam de volta, calmamente, sem a antiga amargura; o que talvez fosse a recompensa por ter amado as pessoas; e elas retornavam em uma bela manhã em St. James`s Park — bem que retornavam.”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.13 – editora Cosac Naify)