29 de agosto de todos esses anos

“Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter” Engenheiros do Hawaii

Advinha quem é?
Mãos de criança mal cobrem seus olhos grandes. Sorri.
E Ana abriu os olhos.
O quarto estava vazio. Onde tinha ido parar a irmã a uma hora dessas? Pantufas de coelho rosa ao pé da cama, tentou calçá-las: pequenas demais?
 Pantufas e sapatos de plástico dão chulé!  logo alguém jogaria fora, agora se lembrava.
Descalça mesmo então.
Não morava naquele apartamento pra sempre  tinha algum futuro distante também.
O chão sujo na sola dos pés, ruído de carpete de madeira descolando – todo som se ouvia. Ela não parecia estar ali. Irmã?
Correndo ao seu encontro um cachorrinho caramelo cheirava leite bebê, todos tinham mesmo envelhecido.
 Cadê?
O cachorrinho tinha escondido a irmã, trapinho de pano azul e rosa, dentro da sua casinha??!!!
– Vamos!
Corria agitado, deslizava nos tapetes e batia a cabeça nas paredes. Bater a cabeça na parede com certeza existe.
Aqui não está.
A porta do banheiro abriu rangendo: saiu de dentro muito arrumada.
(Não) era uma provocação, mas iria embora de qualquer jeito.
Quem quer vir?
Nenhum objeto se mexeu.
O cachorrinho só se fosse no colo.
A porta do banheiro rangeu entreabrindo: em cima da cadeirinha de madeira e fórmica branca  ponta dos pés  pra poder alcançar o olhar no espelho.
Batom vermelho de moranguinho borrou o rosto todo, passava a mão pra tirar, espalhando.
 Brincar de princesa, irmã?
Queria.
Ficou pra sempre mais bonita.

12 de dezembro de 2005

“How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d…” (Eloisa to Abelard, Alexander Pope)

Um cheiro doce.
Tinha uma série de lembranças cansadas que outrora eram a única fonte vital pulsando ofuscada pelo opaco espectro de luz branca do presente.
– Do que você mais gosta?
A moça fazia perguntas difíceis.
E se pudesse parar de pensar?
Achava que sentia alguma coisa parecida com… Nada.
E o nada era além do cansaço, a vontade de pensar o viver outra coisa.
Tudo aquilo: comer, conversar, dançar, ler, amar… Eram como uma mesma coisa e tudo era ameno e bom, ou mais bom do que ruim.
– O céu deve ser essa pasmaceira…
Sim, isso menos as novas vontades. 
As novas vontades não levavam para o céu, porque lá já teria morrido.
Abriu os olhos nublados, eram muito iguais os olhos dele, os mesmos.
E era de repente e devagar que ele acontecia (de) novo.
– Tudo se entende de mil maneiras…
As sensações existiam assim, por si, estava no mundo. E a intenção dos gestos era a cumplicidade acidental, um truque de mágica qualquer.
– Me dá sua mão?

 

a me enfrentar com a leitura bonita de tema difícil: mais do que aguentar o quanto der

“naquele tempo, sem braços e sem pernas, sem olhos e perdendo a voz, absolutamente sem coração, eu não comunicava. era notório que entendia o que me diziam e poderia corresponder a alguns chamados com atenção e respeito, mas não se começavam grandes conversas porque eu não proferia palavra alguma. tinha a voz afundada no húmido dos órgãos e não havia modo de a secar ao cimo do hálito.”

“éramos por igual todos cidadãos da mesma coisa. andar para frente com os instintos de sobrevivência a postos com antenas. eis a emissão certa, a propaganda que não podíamos dispensar, sobreviver, seguramo-nos, e aos nossos, e abrir caminho até morte dentro. essa é que era a essência possível da felicidade, aguentar enquanto desse.”

(máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, pp. 27 e 118, cosacnaify)

Clarissa Dalloway e Peter Walsh

“A partir de agora, nunca mais diria de ninguém que a pessoa era isso ou aquilo. Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia. Não que se considerasse muito inteligente ou excepcional. Não conseguia imaginar como enfrentara a vida com aqueles fiapos de conhecimento incutidos pela Fräulein Daniels. Não sabia nada; nada de outras línguas, nada de história; e agora raramente lia, a não ser memórias, quando se deitava antes de dormir; todavia, para ela, tudo isso era absolutamente absorvente; tudo ao seu redor; os táxis que passavam; e nunca mais diria de Peter, nem de si mesma, sou isso ou sou aquilo.”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.14 – editora Cosac Naify)

“A vantagem de envelhecer, pensou Peter Walsh, saindo do Regent’s Park com o chapéu na mão, era só esta; as paixões permaneciam tão fortes quanto antes, mas a gente dispunha – por fim! – daquele poder que confere o sabor supremo à existência – o poder de agarrar a experiência, de examiná-la por todos os lados, lentamente, sob a luz”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.83 – editora Cosac Naify)

imagem-texto III

ainda não encontrei o título que queria pra esses últimos posts e o blog não me deixa optar por um simples sem título. “nome aos bois”, ele determina. então, continuo assim por hora, fazendo vista grossa aos poréns. mas o que interessa é:

da peça do Lume, os “Os Bem-Intencionados”, que está me rendendo “muitos depois”, conto de memória:

um homem envolto em uma bolha alimentada de um montão de coisas do seu interior e exterior. a bolha cresce, cresce, cresce, até estourar. e se desfaz em cacos de vidro que ficam aderidos à superfície da pele, espalhados por todo corpo. os cacos de vidro são a inspiração.

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eu já tive cacos de vidro presos à mucosa da boca, não doía, e achei que eles eram silêncio.