29 de agosto de todos esses anos

“Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter” Engenheiros do Hawaii

Advinha quem é?
Mãos de criança mal cobrem seus olhos grandes. Sorri.
E Ana abriu os olhos.
O quarto estava vazio. Onde tinha ido parar a irmã a uma hora dessas? Pantufas de coelho rosa ao pé da cama, tentou calçá-las: pequenas demais?
 Pantufas e sapatos de plástico dão chulé!  logo alguém jogaria fora, agora se lembrava.
Descalça mesmo então.
Não morava naquele apartamento pra sempre  tinha algum futuro distante também.
O chão sujo na sola dos pés, ruído de carpete de madeira descolando – todo som se ouvia. Ela não parecia estar ali. Irmã?
Correndo ao seu encontro um cachorrinho caramelo cheirava leite bebê, todos tinham mesmo envelhecido.
 Cadê?
O cachorrinho tinha escondido a irmã, trapinho de pano azul e rosa, dentro da sua casinha??!!!
– Vamos!
Corria agitado, deslizava nos tapetes e batia a cabeça nas paredes. Bater a cabeça na parede com certeza existe.
Aqui não está.
A porta do banheiro abriu rangendo: saiu de dentro muito arrumada.
(Não) era uma provocação, mas iria embora de qualquer jeito.
Quem quer vir?
Nenhum objeto se mexeu.
O cachorrinho só se fosse no colo.
A porta do banheiro rangeu entreabrindo: em cima da cadeirinha de madeira e fórmica branca  ponta dos pés  pra poder alcançar o olhar no espelho.
Batom vermelho de moranguinho borrou o rosto todo, passava a mão pra tirar, espalhando.
 Brincar de princesa, irmã?
Queria.
Ficou pra sempre mais bonita.

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a me enfrentar com a leitura bonita de tema difícil: mais do que aguentar o quanto der

“naquele tempo, sem braços e sem pernas, sem olhos e perdendo a voz, absolutamente sem coração, eu não comunicava. era notório que entendia o que me diziam e poderia corresponder a alguns chamados com atenção e respeito, mas não se começavam grandes conversas porque eu não proferia palavra alguma. tinha a voz afundada no húmido dos órgãos e não havia modo de a secar ao cimo do hálito.”

“éramos por igual todos cidadãos da mesma coisa. andar para frente com os instintos de sobrevivência a postos com antenas. eis a emissão certa, a propaganda que não podíamos dispensar, sobreviver, seguramo-nos, e aos nossos, e abrir caminho até morte dentro. essa é que era a essência possível da felicidade, aguentar enquanto desse.”

(máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, pp. 27 e 118, cosacnaify)

Clarissa Dalloway e Peter Walsh

“A partir de agora, nunca mais diria de ninguém que a pessoa era isso ou aquilo. Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia. Não que se considerasse muito inteligente ou excepcional. Não conseguia imaginar como enfrentara a vida com aqueles fiapos de conhecimento incutidos pela Fräulein Daniels. Não sabia nada; nada de outras línguas, nada de história; e agora raramente lia, a não ser memórias, quando se deitava antes de dormir; todavia, para ela, tudo isso era absolutamente absorvente; tudo ao seu redor; os táxis que passavam; e nunca mais diria de Peter, nem de si mesma, sou isso ou sou aquilo.”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.14 – editora Cosac Naify)

“A vantagem de envelhecer, pensou Peter Walsh, saindo do Regent’s Park com o chapéu na mão, era só esta; as paixões permaneciam tão fortes quanto antes, mas a gente dispunha – por fim! – daquele poder que confere o sabor supremo à existência – o poder de agarrar a experiência, de examiná-la por todos os lados, lentamente, sob a luz”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.83 – editora Cosac Naify)

23 de maio de 2005

see you soon

Ana abriu os olhos e não estava em casa. A noite anterior não tinha terminado ainda. Nem se sentia igual, nem isso era estranho porque já havia construído aquele momento-espaço muitas vezes em imaginação.

Estava emaranhada nos cabelos dele. Como pode ter esquecido de sentir o cheiro?
Como eram os cabelos dele? Essas coisas que não se diz…
Podia estar todo tempo no cuidado e na carícia dos fios, mas não era necessário, os pensamentos é que estavam embaraçados.
Se ela fosse assim outra pessoa, gostaria dela?
Estava muito emaranhada nos cabelos dele e não se sentia sufocada, porque era macio.
Uma trama espiralada de vontade e contravontade.
A ponta do barbante que deveria estar amarrada na sua cintura estava equivocadamente presa ao coração – que estúpida tinha nascido – toda vez que a outra ponta tensionava o fio, denunciando uma saída do labirinto, seu peito apertava e doía.
Se ele também abrisse os olhos ela teria que ir embora – cheios d’água.
Queria demorar ali um pouco mais antes de começar a viver de novo.

19 de outubro de 2005

nos poemas de Adélia Prado cabem, a um mesmo tempo, a minha espiritualidade difusa e o meu amor doente.

Poema começado no fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

saudade

hoje sonhei com uma morte que quero muito evitar, e que talvez por isso mesmo não pare nunca, há anos, de me assombrar. foi um sonho ruim, não poderia ser diferente, mas não foi só isso.

tentei fazer um chá às pressas para que você se sentisse melhor, e as minhas mãos trocadas derrubaram toda a água fervente em uma vasilha com água suja, na pia. não havia tempo para o chá, eu entendi.

corri de volta até a sala onde você terminava de se recostar, e te beijava de um jeito desajeitado, em diferentes e descobertas partes do corpo. não encontrava um gesto suficiente até parar nas suas mãos, na sua mão. e tive, pela primeira vez, a força e generosidade de forjar uma certeza para o outro.

apertei a sua mão bem forte para te dar a segurança, que nem eu mesma jamais tive e não sei se terei, de que será suave e de que o depois será um lugar bem bonito, que eu mesma povoei com as melhores coisas que tenho em mim, e que me foram dadas por você.