21 de maio de 2003

queridinho,

te chamo assim, diminuto, para ser fiel à modéstia, não sem valor, dos nossos sentimentos.
nosso afeto é tão concreto, nada aquém ou além desse enlace das mãos.
a medida exata da realidade: “onde mora o amor?”

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primavera

querida,

ontem, aquele desgaste, foi uma volta por cima.
estou apenas esperando para dar o pulo (modéstia à parte) da gata.
estaremos (sem saber) juntas nessa.
chame de Providência se quiser.
corou minha face e pincelou essa covinha (do lado esquerdo) que completa o seu sorriso.

saudades.

as horas

terça-feira, setembro 28, 2004

sra. dalloway,

há mto não lhe escrevo, mas não foram poucas as páginas guardadas. anotações, desenhos e indicações de músicas. essas linhas vão por saudade, a mesma que lhe aborrece de quando em quando. saudade da vida. muitas vezes pensei em retomar essa correspondência, mas sempre concluía que talvez nunca chegasse para onde sempre foram destinadas. penso que há muita chance de ser abortada novamente, mas hoje, depois de tantas desventuras e desencontros, não importa tanto. porque sua retomada não soa tão dolorosa.

ando curioso em saber como andam nossos amigos comuns. recebo só notícias ruins; as boas, suspeito, reservam para quando eu voltar. mas se eu me demorar? não ficarão ainda mais velhas as notícias? não será mais sôfrego estar ausente e ainda perder o fio da meada? e se eu não voltar a tempo?

aqui os relógios se confundem, ninguém chega a conclusão alguma. eu matenho o mesmo relógio ao qual você fez elogios tão surpreendentes, mas até ele não me surpreende mais. assim que eu terminar essas linhas, enviarei postais aos nossos amigos e em cada um desses postais colocarei uma palavra secreta. assim será forçada a visitá-los para formar o quebra cabeça e saber o que anda sentindo o meu coração, se lhe interessar.

vai anexo alguns selos locais. não poderá usá-los sós, mas se colar alguns daí talvez os correios aceitem a brincadeira. e será como se estivéssemos infringindo a geografia para estarmos mais próximos mesmo que em envelope sem dolência.

posted by Marcio at 11:56 PM

as horas

querido,

seu conselho sempre ecoa cicatrizante no meu estômago: “an apple a day keeps the doctor away”. imagine como tenho (sor)rido sozinha ao pensar no negócio que ajudou a viabilizar e que agora adoça incessantemente os seus dias. estou quase que definitivamente convencida da cura, que poder têm essas coincidências! por hoje é tudo, uma alegriazinha boba não me deixa ficar aqui concentrada em pensamentos e escrita, quero mesmo é estar cega sob o sol.

as horas

querido,

ainda não recebi qualquer notícia sua, por isso esta carta é bilhete e o sumo é o poema que vai junto, dobrado miúdo, folha única. sei que será resistente em ler, dirá para si que é mais uma atitude a um mesmo tempo sentimental e frívola. e eu não pretendo me defender. imagino que a curiosidade irá vencê-lo à beira de um lago ou no cume de alguma montanha. foi com esmero que me demorei a copiar palavra a palavra de um livro que por certo desconhece.

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Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes, do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos como certas cantoras.
Não tenho mais paciência com assuntos de quem morreu,
                                                                     quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias, meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã
ninguém mais sabe de nós.
Só a eles conto meu desvario.
Bem podia você telefonar, escrever, telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente.
Me surpreendi grunhindo, beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo. De saudade. Tudo por sua causa.
Me escreve. Ou inventa um jeito – eu sei mil –
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta – que na minha imaginação
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente para eu saudar o Embaixador.
Respondi não. Com todas as letras, não.
Só pra me divertir expliquei
que aguardo nesta mesma data visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço para estourar uma guerra
e você se ver obrigado a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionaram. Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
               Sua sempre, Beta.

 

(Carta, Adélia Prado, “A Faca no Peito”)