16 de maio de 2005

enquanto seu Tempo não vem eu corro o presente e recorro ao passado.

INVERNO

Ana abriu os olhos, ainda bem que lá fora não havia silêncio absoluto, os pensamentos ecoavam insistentes apenas no espaço pequeno e grande da sua caixa craniana.
A sua imagem no espelho não era bonita como no sonho. O rosto estava inchado e o corpo era magro ou gordo? Os corpos são mais bonitos em movimento e quando se tocam. Era por isso então que ela sentia tanto frio?
Longas horas se arrumando cuidavam que alguma graça pudesse surgir ao longo do dia, surpreendente aos olhos de alguém.
Havia uma lista de esforços diários a serem cumpridos.
Ficaria exposta na vitrine da rua, era de gosto aquele jeito de se arrumar(?), queria muito que alguém comprasse.
Como era mesmo aquela música que falava sobre isso?
Se tudo é natural por que dói tanto?

O menino no sonho tinha muitos rostos, melhor apagar todos? Trazia alguma coisa nas mãos e as próprias mãos, uma esfera brilhante e frágil, núcleo duro de um coração, qualquer?
Mãe, isso passa? E não sabia se era capaz de acreditar na resposta. Voz macia a de mãe.
Gostaria de estar pensando em outra coisa quando se lembrou:“há algo que jamais se esclareceu, onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei…”

 

saudade

hoje sonhei com uma morte que quero muito evitar, e que talvez por isso mesmo não pare nunca, há anos, de me assombrar. foi um sonho ruim, não poderia ser diferente, mas não foi só isso.

tentei fazer um chá às pressas para que você se sentisse melhor, e as minhas mãos trocadas derrubaram toda a água fervente em uma vasilha com água suja, na pia. não havia tempo para o chá, eu entendi.

corri de volta até a sala onde você terminava de se recostar, e te beijava de um jeito desajeitado, em diferentes e descobertas partes do corpo. não encontrava um gesto suficiente até parar nas suas mãos, na sua mão. e tive, pela primeira vez, a força e generosidade de forjar uma certeza para o outro.

apertei a sua mão bem forte para te dar a segurança, que nem eu mesma jamais tive e não sei se terei, de que será suave e de que o depois será um lugar bem bonito, que eu mesma povoei com as melhores coisas que tenho em mim, e que me foram dadas por você.

as cartas

Pina, eu nunca quis evocar os mortos. quando era pequena eu fechava bem forte os olhos diante dos meus fantasmas, e negociava: “eu te respeito, você me respeita, portanto, vá embora”. sempre deu certo, eu nunca soube se eles alguma vez estiveram por lá. se sim, devem ter ficado muito convencidos ou comovidos com os meus argumentos. eu não tenho medo da sua volta e nem dor pela sua partida. eu te fiz pássaro, pluma, dente-de-leão, semente, vento, nada. você foi embora evaporando, suave suave, nem gente você é mais. nem monstro, impossível. é só gente e monstro que eu temo. por outro lado, é de gente que eu mais preciso e por isso gosto tanto das cartas, sobretudo das que não escrevi. e estou gostando tanto de ficar sob o seu olhar quieto, acolhedor da feiúra e fazedor de beleza.