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a imagem foi tirada da nota do yahoo sobre o menino indiano que teria aspirado um peixe vivo. e o texto abaixo é mais um daqueles publicado há alguns anos, em outro lugar:

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Trip,

O cheiro de mar impregnou minhas roupas, assim como ao fundo de tudo que escuto persiste o som das ondas se formando e quebrando naquelas pedras. E é areia o que limpo no canto dos meus olhos quando acordo e o que faz meus pés soarem chocalhos batendo contra o chão enquanto ando.
Como todas as grandezas inapreensíveis, a materialidade e a adjetivação óbvia é tudo o que posso nomear: imenso.
Minha visão não tem esse alcance.
Estou mareada com tudo o que meus sentidos absorveram e eu não pude compreender.
Meu estômago não é o mesmo há dias, engoli um filhote de peixe inteiro que após se debater por horas dentro de mim acabou por se acostumar com as novas condições ambientes, acho. Parecia querer saltar pela minha boca, mas a palavra nunca chegou a se formar – sílabas escorregadias e salgadas deixaram o céu da minha boca infértil.
E o mais estranho é saber, sem poder ver, que ele está crescendo.
Estou tentando escolher um nome pra torná-lo mais próximo meu. Penso em nomes bíblicos masculinos, acho que anseio por uma benção.
É assustador e fascinante ser tão pequena e tão grande. Tenho um instante pérola fechado na concha do meu peito.
Seria muito mais solitário se não fosse por Matheus, Pedro, João, Paulo… E em qualquer conversa, sem que eu possa evitar, meu olhar desvia em busca de um horizonte possível.

Ana

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eu fui criada em um catolicismo nada rigoroso, mais bem da verdade em uma “religiosidade holística” que poderia ter sua máxima no já clichê “há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia” (livre e leviana citação, que escutei em casa boa parte da infância e adolescência). pronto, nessa frase cabe quase tudo.

respeito as crenças alheias e estou, eu também, inundada das minhas próprias. e ainda acho difícil que alguém passe por essa vida sem nunca ter tido uma experiência transcendente, o além-eu. isso é o tempo todo, chame como quiser.

isso dito, não tenho e não sei se terei um dia alguma religião, mas não posso acreditar em nada que esteja além da vida, antes de estar profundamente ligado à vida.

pra mim, ou deus está aqui agora e sempre e no outro, ou não está. se há outra vida, eu não conheço. nesta aqui, eu ainda estou: i believe in life.

peguei a foto no post da lola sobre a manifestação dos ateus americanos, em Washington DC. achei o cartaz simplesmente justo.