longo é o silêncio

me lo comí
me lo comí
había un poema acá
pero me lo comí
estuvo rico el poema
relleno de maní
como las golosinas
que vendía mi tia lucí
eruté eruté
y era música
la escucharon
los frailes y las monjas
y una sola golondrina
que volaba a parís

 

angélica freitas

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a me enfrentar com a leitura bonita de tema difícil: mais do que aguentar o quanto der

“naquele tempo, sem braços e sem pernas, sem olhos e perdendo a voz, absolutamente sem coração, eu não comunicava. era notório que entendia o que me diziam e poderia corresponder a alguns chamados com atenção e respeito, mas não se começavam grandes conversas porque eu não proferia palavra alguma. tinha a voz afundada no húmido dos órgãos e não havia modo de a secar ao cimo do hálito.”

“éramos por igual todos cidadãos da mesma coisa. andar para frente com os instintos de sobrevivência a postos com antenas. eis a emissão certa, a propaganda que não podíamos dispensar, sobreviver, seguramo-nos, e aos nossos, e abrir caminho até morte dentro. essa é que era a essência possível da felicidade, aguentar enquanto desse.”

(máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, pp. 27 e 118, cosacnaify)

Clarissa Dalloway e Peter Walsh

“A partir de agora, nunca mais diria de ninguém que a pessoa era isso ou aquilo. Ela se sentia muito jovem; ao mesmo tempo, inconcebivelmente velha. Passava por tudo como uma faca afiada; ao mesmo tempo, ficava de fora, contemplando. Tinha uma sensação permanente, olhando os táxis, de estar longe, longe, bem longe no mar e sozinha; sempre era invadida por essa sensação de que era muito, muito perigoso viver, ainda que por um dia. Não que se considerasse muito inteligente ou excepcional. Não conseguia imaginar como enfrentara a vida com aqueles fiapos de conhecimento incutidos pela Fräulein Daniels. Não sabia nada; nada de outras línguas, nada de história; e agora raramente lia, a não ser memórias, quando se deitava antes de dormir; todavia, para ela, tudo isso era absolutamente absorvente; tudo ao seu redor; os táxis que passavam; e nunca mais diria de Peter, nem de si mesma, sou isso ou sou aquilo.”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.14 – editora Cosac Naify)

“A vantagem de envelhecer, pensou Peter Walsh, saindo do Regent’s Park com o chapéu na mão, era só esta; as paixões permaneciam tão fortes quanto antes, mas a gente dispunha – por fim! – daquele poder que confere o sabor supremo à existência – o poder de agarrar a experiência, de examiná-la por todos os lados, lentamente, sob a luz”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.83 – editora Cosac Naify)

Peter Walsh nunca vai embora

eu conheci peter walsh em suas várias formas e lugares, embora sempre nesta mesma cidade de onde remeto todas as minhas cartas. demorei a reconhecê-lo neste último encontro, ele estava grisalho e comovido. tomou minhas mãos entre as suas, quentes e macias, e me chamou bonita e mulher. logo eu que sou feia, mas tenho essa sorte e graça de confundir alguns homens: ele se vê velho, eu o vejo homem. olhos muito claros sempre me põem desconcertada, vazam e escondem, com força e presença, sem idade.

as horas

querido,

ainda não recebi qualquer notícia sua, por isso esta carta é bilhete e o sumo é o poema que vai junto, dobrado miúdo, folha única. sei que será resistente em ler, dirá para si que é mais uma atitude a um mesmo tempo sentimental e frívola. e eu não pretendo me defender. imagino que a curiosidade irá vencê-lo à beira de um lago ou no cume de alguma montanha. foi com esmero que me demorei a copiar palavra a palavra de um livro que por certo desconhece.

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Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes, do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos como certas cantoras.
Não tenho mais paciência com assuntos de quem morreu,
                                                                     quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias, meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã
ninguém mais sabe de nós.
Só a eles conto meu desvario.
Bem podia você telefonar, escrever, telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente.
Me surpreendi grunhindo, beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo. De saudade. Tudo por sua causa.
Me escreve. Ou inventa um jeito – eu sei mil –
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta – que na minha imaginação
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente para eu saudar o Embaixador.
Respondi não. Com todas as letras, não.
Só pra me divertir expliquei
que aguardo nesta mesma data visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço para estourar uma guerra
e você se ver obrigado a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionaram. Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
               Sua sempre, Beta.

 

(Carta, Adélia Prado, “A Faca no Peito”)