correspondência

eu tive oportunidade de ver uma montagem dela, Pina, embora já sem sua presença física, no ano em que ela se foi, 2009.

estava muito cansada, e o cansaço pode ser um cruel fazedor de zumbis, ou quase. foi uma luta resistir ao Cafe Müller e acho que mais ainda, precisamente, porque tinha tudo a ver (ou sentir) com o meu estado.

e eu até questionei a experiência, de que me valeu se foi tanta a dificuldade? de que me valeu se não pude disponibilizar todos os meus sentidos? mas até os bailarinos podiam semicerrar os olhos!

as imagens voltam muitas e muitas vezes. eu sendo cafe müller e desejando ser a sagração da primavera.

hoje, acho que foi realmente insubstituível. reconheço o legado das sensações para as quais não tenho expressão melhor do que um amontoado de dizeres abstratos e insuficientes: aquela espécie de sonambulismo, o automatismo de alguns gestos, os gestos ainda assim fugindo do controle – desculpe, seu organismo não te permite ser um autômato -, não só pelo esvaziamento ou questionamento do sentido, mas também por causa do amor, por causa da vida, inevitável. da memória da vida, por causa da permanência mesmo na morte, a marca de tudo em tudo, enfim…

na Sagração da Primavera havia mais energia em qualquer ínfima parte do corpo de qualquer única pessoa no corpo de baile do que no meu corpo todo. o que mais lembro são as cores, a cor entre as cores, e a vontade de deitar na terra: eu gosto de pôr a mão.

primeiro eu pensei na minha dança como cura e logo desacreditei. eu também queria dançar, mas só como quem diz: “o que mais podemos fazer?”

Anúncios

o sussurro persistente do vento no deserto

a tenda estava posta no meio do nada. quem há de dizer que não?

a palavra soprada era relembrar.

a entrada era de manuseado tecido: a saia terminando sua caída no quadril, o corpo deslizando sob o lençol, a primeira mulher adentrando a tenda.

o espaço oferecia muito chão e poucas cores, tampouco a natureza lá fora tinha mais que um céu azul-dia, ao menos é o que viam esses olhos desabituados: sépia, areia, cobre, tanto marron e branco encardido. o menino branco quase louro sentado no tapete vestia única túnica e sequer moveu os olhos, fixos e serenos à entrada da mulher.

a palavra soprada era remissão.

a simplicidade da recepção não intimidou a visitante, mas o desconforto estava à espreita: outra parede-pano, ao ser tocada, revelou a mulher original. descobertas pernas esguias e o cabelo escuro e longo, levemente anelado. foi só um golpe de vista antes do escorrer do algodão, de volta à gravidade inicial, bloqueando a visão: não.

a palavra soprada era respeito.

o moço-menino-oráculo, só ele  podia entender a palavra incompreensível: à maledicência, ele escolheu o não-dizer-nada.

a palavra soprada era reinventar.

algumas amizades terminam aos gritos loucos, outras permanecem na paz e no silêncio do nunca mais.

a palavra soprada era re-esquecer.

no alarms and no surprises

estável – tudo assim tão aparentemente acomodado. cada coisa-objeto-sentimento no seu exato local escolhido: a resposta à eventual desorganização é o sereno trabalho de reorganizar – saber onde cada coisa está(va).

para o futuro, tudo traçado de véspera – a antemão – sem a surpresa das cartas postas na mesa, ou capricho dos astros. contra a surpresa, a certeza. e da(s) certeza(s) a crença nossa de cada dia.

surpresa é a gente assim, de repente, não caber mais na crença.