23 de maio de 2005

see you soon

Ana abriu os olhos e não estava em casa. A noite anterior não tinha terminado ainda. Nem se sentia igual, nem isso era estranho porque já havia construído aquele momento-espaço muitas vezes em imaginação.

Estava emaranhada nos cabelos dele. Como pode ter esquecido de sentir o cheiro?
Como eram os cabelos dele? Essas coisas que não se diz…
Podia estar todo tempo no cuidado e na carícia dos fios, mas não era necessário, os pensamentos é que estavam embaraçados.
Se ela fosse assim outra pessoa, gostaria dela?
Estava muito emaranhada nos cabelos dele e não se sentia sufocada, porque era macio.
Uma trama espiralada de vontade e contravontade.
A ponta do barbante que deveria estar amarrada na sua cintura estava equivocadamente presa ao coração – que estúpida tinha nascido – toda vez que a outra ponta tensionava o fio, denunciando uma saída do labirinto, seu peito apertava e doía.
Se ele também abrisse os olhos ela teria que ir embora – cheios d’água.
Queria demorar ali um pouco mais antes de começar a viver de novo.

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8 de março de 2005

passei em frente a sua casa

O silêncio confortável da sua companhia, as ideias compartilhadas, esse à vontade que eu tanto almejo, que às vezes penso ser só o que almejo – alguém aqui – você ali.
São cotidianas as alegrias que tenho a oferecer.
E era cotidiana a presença do seu afeto, do qual eu não podia compartilhar.
Em cada encontro a identificação de um sentimento desencontrado.
Eram outros os contornos do meu desejo e é impossível saber ao certo como negociam entre si a escolha e a condição.
Não é bonito poder te compreender, porque é cruel.
São de diferentes naturezas a compaixão e a reciprocidade. Eu também estive do seu lado, mas eu não estive pra você.
Foi espanto pensar – de repente – como você pode prestar tanta atenção em mim, por tanto tempo, e ainda assim me achar bonita.