o sussurro persistente do vento no deserto

a tenda estava posta no meio do nada. quem há de dizer que não?

a palavra soprada era relembrar.

a entrada era de manuseado tecido: a saia terminando sua caída no quadril, o corpo deslizando sob o lençol, a primeira mulher adentrando a tenda.

o espaço oferecia muito chão e poucas cores, tampouco a natureza lá fora tinha mais que um céu azul-dia, ao menos é o que viam esses olhos desabituados: sépia, areia, cobre, tanto marron e branco encardido. o menino branco quase louro sentado no tapete vestia única túnica e sequer moveu os olhos, fixos e serenos à entrada da mulher.

a palavra soprada era remissão.

a simplicidade da recepção não intimidou a visitante, mas o desconforto estava à espreita: outra parede-pano, ao ser tocada, revelou a mulher original. descobertas pernas esguias e o cabelo escuro e longo, levemente anelado. foi só um golpe de vista antes do escorrer do algodão, de volta à gravidade inicial, bloqueando a visão: não.

a palavra soprada era respeito.

o moço-menino-oráculo, só ele  podia entender a palavra incompreensível: à maledicência, ele escolheu o não-dizer-nada.

a palavra soprada era reinventar.

algumas amizades terminam aos gritos loucos, outras permanecem na paz e no silêncio do nunca mais.

a palavra soprada era re-esquecer.

no alarms and no surprises

estável – tudo assim tão aparentemente acomodado. cada coisa-objeto-sentimento no seu exato local escolhido: a resposta à eventual desorganização é o sereno trabalho de reorganizar – saber onde cada coisa está(va).

para o futuro, tudo traçado de véspera – a antemão – sem a surpresa das cartas postas na mesa, ou capricho dos astros. contra a surpresa, a certeza. e da(s) certeza(s) a crença nossa de cada dia.

surpresa é a gente assim, de repente, não caber mais na crença.