12 de dezembro de 2005

“How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d…” (Eloisa to Abelard, Alexander Pope)

Um cheiro doce.
Tinha uma série de lembranças cansadas que outrora eram a única fonte vital pulsando ofuscada pelo opaco espectro de luz branca do presente.
– Do que você mais gosta?
A moça fazia perguntas difíceis.
E se pudesse parar de pensar?
Achava que sentia alguma coisa parecida com… Nada.
E o nada era além do cansaço, a vontade de pensar o viver outra coisa.
Tudo aquilo: comer, conversar, dançar, ler, amar… Eram como uma mesma coisa e tudo era ameno e bom, ou mais bom do que ruim.
– O céu deve ser essa pasmaceira…
Sim, isso menos as novas vontades. 
As novas vontades não levavam para o céu, porque lá já teria morrido.
Abriu os olhos nublados, eram muito iguais os olhos dele, os mesmos.
E era de repente e devagar que ele acontecia (de) novo.
– Tudo se entende de mil maneiras…
As sensações existiam assim, por si, estava no mundo. E a intenção dos gestos era a cumplicidade acidental, um truque de mágica qualquer.
– Me dá sua mão?

 

imagem-texto III

ainda não encontrei o título que queria pra esses últimos posts e o blog não me deixa optar por um simples sem título. “nome aos bois”, ele determina. então, continuo assim por hora, fazendo vista grossa aos poréns. mas o que interessa é:

da peça do Lume, os “Os Bem-Intencionados”, que está me rendendo “muitos depois”, conto de memória:

um homem envolto em uma bolha alimentada de um montão de coisas do seu interior e exterior. a bolha cresce, cresce, cresce, até estourar. e se desfaz em cacos de vidro que ficam aderidos à superfície da pele, espalhados por todo corpo. os cacos de vidro são a inspiração.

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eu já tive cacos de vidro presos à mucosa da boca, não doía, e achei que eles eram silêncio.

Peter Walsh nunca vai embora

eu conheci peter walsh em suas várias formas e lugares, embora sempre nesta mesma cidade de onde remeto todas as minhas cartas. demorei a reconhecê-lo neste último encontro, ele estava grisalho e comovido. tomou minhas mãos entre as suas, quentes e macias, e me chamou bonita e mulher. logo eu que sou feia, mas tenho essa sorte e graça de confundir alguns homens: ele se vê velho, eu o vejo homem. olhos muito claros sempre me põem desconcertada, vazam e escondem, com força e presença, sem idade.