casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

adélia prado

Anúncios

as horas

querido,

ainda não recebi qualquer notícia sua, por isso esta carta é bilhete e o sumo é o poema que vai junto, dobrado miúdo, folha única. sei que será resistente em ler, dirá para si que é mais uma atitude a um mesmo tempo sentimental e frívola. e eu não pretendo me defender. imagino que a curiosidade irá vencê-lo à beira de um lago ou no cume de alguma montanha. foi com esmero que me demorei a copiar palavra a palavra de um livro que por certo desconhece.

_____________________________________________________________
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes, do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos como certas cantoras.
Não tenho mais paciência com assuntos de quem morreu,
                                                                     quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias, meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã
ninguém mais sabe de nós.
Só a eles conto meu desvario.
Bem podia você telefonar, escrever, telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente.
Me surpreendi grunhindo, beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo. De saudade. Tudo por sua causa.
Me escreve. Ou inventa um jeito – eu sei mil –
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta – que na minha imaginação
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente para eu saudar o Embaixador.
Respondi não. Com todas as letras, não.
Só pra me divertir expliquei
que aguardo nesta mesma data visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço para estourar uma guerra
e você se ver obrigado a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionaram. Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
               Sua sempre, Beta.

 

(Carta, Adélia Prado, “A Faca no Peito”)

19 de outubro de 2005

nos poemas de Adélia Prado cabem, a um mesmo tempo, a minha espiritualidade difusa e o meu amor doente.

Poema começado no fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.