correspondência

eu tive oportunidade de ver uma montagem dela, Pina, embora já sem sua presença física, no ano em que ela se foi, 2009.

estava muito cansada, e o cansaço pode ser um cruel fazedor de zumbis, ou quase. foi uma luta resistir ao Cafe Müller e acho que mais ainda, precisamente, porque tinha tudo a ver (ou sentir) com o meu estado.

e eu até questionei a experiência, de que me valeu se foi tanta a dificuldade? de que me valeu se não pude disponibilizar todos os meus sentidos? mas até os bailarinos podiam semicerrar os olhos!

as imagens voltam muitas e muitas vezes. eu sendo cafe müller e desejando ser a sagração da primavera.

hoje, acho que foi realmente insubstituível. reconheço o legado das sensações para as quais não tenho expressão melhor do que um amontoado de dizeres abstratos e insuficientes: aquela espécie de sonambulismo, o automatismo de alguns gestos, os gestos ainda assim fugindo do controle – desculpe, seu organismo não te permite ser um autômato -, não só pelo esvaziamento ou questionamento do sentido, mas também por causa do amor, por causa da vida, inevitável. da memória da vida, por causa da permanência mesmo na morte, a marca de tudo em tudo, enfim…

na Sagração da Primavera havia mais energia em qualquer ínfima parte do corpo de qualquer única pessoa no corpo de baile do que no meu corpo todo. o que mais lembro são as cores, a cor entre as cores, e a vontade de deitar na terra: eu gosto de pôr a mão.

primeiro eu pensei na minha dança como cura e logo desacreditei. eu também queria dançar, mas só como quem diz: “o que mais podemos fazer?”

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abril ausente

não houve abril em 2006 no outro blog. no exercício da imaginação há muitas causas possíveis, talvez pudéssemos diminuí-las se pensarmos em causas prováveis, das mais prosaicas às mais dramáticas. multiplique tudo isso por seis, o número de colaboradores, mesmo que na época fôssemos em menor número. o tempo justifica essa imprecisão.

o amigo márcio yonamine arriscou dizer que estávamos todos apaixonados. talvez a ideia da vida prescindindo do texto, da interpretação, da expressão além, a vida sendo e só. em outras palavras, estávamos todos vivos e vivendo. e isso, de um jeito ou de outro, só pode ser certo.

abril não é férias, não é começo de ano, não é fim de ano. abril quase não é aniversário de nenhum de nós. a páscoa ocupa uns poucos dias, vamos chamar de uma semana: viagem, família, comida, chocolate, outras coisas. abril é meio de semestre, mas eu ousaria dizer que por lá ninguém era assim tão aplicado.

em 2006, nesse mês, ninguém quis escrever, ou publicar. e estávamos todos, sem dúvida, fazendo alguma coisa.

o sussurro persistente do vento no deserto

a tenda estava posta no meio do nada. quem há de dizer que não?

a palavra soprada era relembrar.

a entrada era de manuseado tecido: a saia terminando sua caída no quadril, o corpo deslizando sob o lençol, a primeira mulher adentrando a tenda.

o espaço oferecia muito chão e poucas cores, tampouco a natureza lá fora tinha mais que um céu azul-dia, ao menos é o que viam esses olhos desabituados: sépia, areia, cobre, tanto marron e branco encardido. o menino branco quase louro sentado no tapete vestia única túnica e sequer moveu os olhos, fixos e serenos à entrada da mulher.

a palavra soprada era remissão.

a simplicidade da recepção não intimidou a visitante, mas o desconforto estava à espreita: outra parede-pano, ao ser tocada, revelou a mulher original. descobertas pernas esguias e o cabelo escuro e longo, levemente anelado. foi só um golpe de vista antes do escorrer do algodão, de volta à gravidade inicial, bloqueando a visão: não.

a palavra soprada era respeito.

o moço-menino-oráculo, só ele  podia entender a palavra incompreensível: à maledicência, ele escolheu o não-dizer-nada.

a palavra soprada era reinventar.

algumas amizades terminam aos gritos loucos, outras permanecem na paz e no silêncio do nunca mais.

a palavra soprada era re-esquecer.

8 de março de 2005

passei em frente a sua casa

O silêncio confortável da sua companhia, as ideias compartilhadas, esse à vontade que eu tanto almejo, que às vezes penso ser só o que almejo – alguém aqui – você ali.
São cotidianas as alegrias que tenho a oferecer.
E era cotidiana a presença do seu afeto, do qual eu não podia compartilhar.
Em cada encontro a identificação de um sentimento desencontrado.
Eram outros os contornos do meu desejo e é impossível saber ao certo como negociam entre si a escolha e a condição.
Não é bonito poder te compreender, porque é cruel.
São de diferentes naturezas a compaixão e a reciprocidade. Eu também estive do seu lado, mas eu não estive pra você.
Foi espanto pensar – de repente – como você pode prestar tanta atenção em mim, por tanto tempo, e ainda assim me achar bonita.