16 de junho de 2005

sós

“estamos sob o mesmo teto”. sobre o ventre uma mão áspera, não foi carinho, foi acidente “secreto”. dois corpos que não se enlaçam – reta e e meia lua – um arco. “onde o sol indesejável é barrado”. não os dedos extensão das mãos tocavam os braços dele, mas a vontade extensão dos sentidos, “eu e você”. ele cheirava forte – sujo e estragado –, “sob o mesmo nós”. “dois, sóis/sob o mesmo pôr”.
ana abriu os olhos pesados, veria todos os defeitos dele, um a um, uma soma extraordinária. em números altos podia xingá-lo de:
tudo de errado com o que tinha nascido!
queria que fosse o pai do seu filho, com ele teria menino. Só podia estar louca… “(o enigma do amor)/do sol”a pele é o maior órgão do corpo humano – “onde todo contorno finda” – diferentes cores e texturas, morder até machucar – feriu o lábio inferior.
como controlar as batidas do coração? ele dormia de boca aberta. iria xingá-lo de:
babão! – se ele dissesse qualquer coisa.
saliva misturada com suor e lágrima – o olho lacrimejava de sono e raiva, “estamos/sob a mesma pálpebra”. turvo e escuro demais pra ver os defeitos dele. “agora já e ainda”.
ele dormia sem sentimento. xingaria de:
não me importo!
ele não se importava, mesmo (“intactos de aurora”).
o desejo dela não vermelho, mas preto.

são avós

eu reconheço a ousadia e disparate de querer reproduzir aqui os poemas do arnaldo antunes, desrespeitando quase que completamente o seu aspecto gráfico e tão essencial. alguns dirão que isso é uma besteira, outros mais puristas ou sérios dirão que eu nem mesmo mereço qualquer atenção. com estes dois eu concordaria em parte. e mesmo assim, em alguns locais e ocasiões a gente acaba fazendo praticamente só o que quer. é o meu caso aqui e agora. o livro é “as coisas” e se eu fosse você, eu ia lá. o poema é uma homenagem que dispensa explicações.

Neto e neta são

netos, no mas-

culino. Filho e filha são filhos,

no masculino. Pai

e mãe são pais, no

masculino. Avô e

avó são avós.

“2 ou + corpos no mesmo espaço”

eu adoro o arnaldo antunes, mesmo muito. se eu encontrasse ele na rua, por acidente – ele que mora aqui do lado -, ou se alguém me apresentasse a ele, assim inesperadamente, eu acho que ia chorar. sem afetação, chorar, simples assim, ridículo e simples. eu encontrando o meu amigo de infância, o amigo de infância perdido. se hoje fosse quando eu era criança, e se eu não fosse a criança besta que fui, eu iria até ele, na primeira série, quem sabe, e diria assim: “quer brincar de palavras comigo?”. Ele quer, é claro, e saímos de mãos dadas, eu muito muito contente.

houve uma época da minha vida em que eu estive triste triste triste, e estar na tristeza, assim todo dia, dia a dia, parece que não tem fim. a ironia é que eu tinha acabado de ganhar a alegria de entrar na faculdade, o curso que eu mesma escolhi. e eu dormia copiosamente em todos os filmes. eu não suportava a violência dos filmes – tanto bonito e feio explodindo na minha cara. e então, naquele lugar conhecido e sempre novo, quase que só pude encontrar algum alento nos livros, aquele monte de gente lá dentro, esperando o meu momento, todos falando baixinho e suave, eu podendo ser bem quietinha, eu não fingindo nadinha de nada – tanto segredo sem susto dos outros.

nessa época eu li muito arnaldo antunes, andei com ele pra cima e pra baixo, ou para dentro e para fora. e no meio de tanto texto que eu nunca esqueci, esse daqui volta e meia comigo está. enquanto eu acompanhava o inventário das tristezas, sem me dar conta eu também brincava de escolher, feito uma criança machucada agarrando a diversão possível:

o que pode ser mais triste –
    um tigre de circo, alguém
    perdido?
 uma promessa quebrada
 como um brinquedo, um segredo
 contado, terremoto, lar
 desfeito, desejo (medo)
 desperdiçado?
defeito, braço direito
 amputado, fósforo
molhado?
 o que pode ser mais triste?
vaca, chuva, trapo?
criança calada, escravo?
poça, lago, vidro (amor
 não correspondido)
 embaçado?
palavra errada, guerra, marte?
pêndulo? empate?
feiúra, cegueira,
fim de festa, falta
de vontade?
(uma coisa triste de)
 verdade?