21 de maio de 2003

queridinho,

te chamo assim, diminuto, para ser fiel à modéstia, não sem valor, dos nossos sentimentos.
nosso afeto é tão concreto, nada aquém ou além desse enlace das mãos.
a medida exata da realidade: “onde mora o amor?”

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as cartas

Pina, eu nunca quis evocar os mortos. quando era pequena eu fechava bem forte os olhos diante dos meus fantasmas, e negociava: “eu te respeito, você me respeita, portanto, vá embora”. sempre deu certo, eu nunca soube se eles alguma vez estiveram por lá. se sim, devem ter ficado muito convencidos ou comovidos com os meus argumentos. eu não tenho medo da sua volta e nem dor pela sua partida. eu te fiz pássaro, pluma, dente-de-leão, semente, vento, nada. você foi embora evaporando, suave suave, nem gente você é mais. nem monstro, impossível. é só gente e monstro que eu temo. por outro lado, é de gente que eu mais preciso e por isso gosto tanto das cartas, sobretudo das que não escrevi. e estou gostando tanto de ficar sob o seu olhar quieto, acolhedor da feiúra e fazedor de beleza.