correspondência

eu tive oportunidade de ver uma montagem dela, Pina, embora já sem sua presença física, no ano em que ela se foi, 2009.

estava muito cansada, e o cansaço pode ser um cruel fazedor de zumbis, ou quase. foi uma luta resistir ao Cafe Müller e acho que mais ainda, precisamente, porque tinha tudo a ver (ou sentir) com o meu estado.

e eu até questionei a experiência, de que me valeu se foi tanta a dificuldade? de que me valeu se não pude disponibilizar todos os meus sentidos? mas até os bailarinos podiam semicerrar os olhos!

as imagens voltam muitas e muitas vezes. eu sendo cafe müller e desejando ser a sagração da primavera.

hoje, acho que foi realmente insubstituível. reconheço o legado das sensações para as quais não tenho expressão melhor do que um amontoado de dizeres abstratos e insuficientes: aquela espécie de sonambulismo, o automatismo de alguns gestos, os gestos ainda assim fugindo do controle – desculpe, seu organismo não te permite ser um autômato -, não só pelo esvaziamento ou questionamento do sentido, mas também por causa do amor, por causa da vida, inevitável. da memória da vida, por causa da permanência mesmo na morte, a marca de tudo em tudo, enfim…

na Sagração da Primavera havia mais energia em qualquer ínfima parte do corpo de qualquer única pessoa no corpo de baile do que no meu corpo todo. o que mais lembro são as cores, a cor entre as cores, e a vontade de deitar na terra: eu gosto de pôr a mão.

primeiro eu pensei na minha dança como cura e logo desacreditei. eu também queria dançar, mas só como quem diz: “o que mais podemos fazer?”

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