29 de março de 2007

o avesso

Foi a Solidão quem me deixou na rua por mais tempo esta noite.
Aquela lembrança – vestida de azul no último encontro – cabe em muitas mulheres.
Pouco me importa que o conjunto não seja o mesmo, se eu nunca te tive na inteireza da vida – horas, semanas e meses de partida anunciada – sou bem capaz de me contentar com uma parte pelo todo.
Em qualquer traço ou gesto alheio incomum eu saboreio o mesmo gosto da tua beleza exótica.
O vislumbre da tua fé sustenta a minha paz de espírito.
“Dai-me tuas certezas” – eu clamaria de noite se tivesse o hábito de rezar.

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não se pode amar demais

não se pode amar demais.

o dé sempre diz (talvez às vezes, ou algumas vezes, mas a invenção é minha, então: licença poética! esse dé que eu também invento) que não existe “te amo muito”. como se o “te amo” fosse assim imensurável, ou a expressão do imensurável, e não comportasse qualquer noção de quantidade ou intensidade vinculados. o “muito” é a sobra do que não tem medida.

e eu acho que o “muito” é aquela sensação que fica insatisfeita e angustiada no peito – no peito mesmo, quase física – quando a gente está sentindo alguma coisa além do que consegue expressar. o tão bom que quase dói, ou dói mesmo. o ter em face do seu oposto complementar e inevitável: o não ter, ou o perder.

de semelhantes, a palavra e o sentimento têm esse lugar de sobra: incompletos e insuficientes. incompreensíveis eles permanecem ali, um para o outro, embora nunca nunca coincidentes, afinal. querer ser um sem nunca poder, o impossível. a tentativa de viver o amor e conformá-lo é um desespero bonito.

eu sempre digo que não existe o desamor, o sentimento que de fato se desfaz. eu tolero, no máximo, a ideia do não-amor, mas um padre muito bom me convenceu ainda menina que esse segundo também está fora de cogitação na nossa humana condição.

eu não abro mão da minha história, se você passou por aqui, de um jeito ou de outro, aqui ainda está. tanta coisa é “muito” na falta de precisão possível.

não se pode amar de menos.