29 de março de 2007

o avesso

Foi a Solidão quem me deixou na rua por mais tempo esta noite.
Aquela lembrança – vestida de azul no último encontro – cabe em muitas mulheres.
Pouco me importa que o conjunto não seja o mesmo, se eu nunca te tive na inteireza da vida – horas, semanas e meses de partida anunciada – sou bem capaz de me contentar com uma parte pelo todo.
Em qualquer traço ou gesto alheio incomum eu saboreio o mesmo gosto da tua beleza exótica.
O vislumbre da tua fé sustenta a minha paz de espírito.
“Dai-me tuas certezas” – eu clamaria de noite se tivesse o hábito de rezar.

22 de fevereiro de 2007

Era o reinado da beleza.
A tua franja pesada escorregando na pele escura e se detendo ora nos cílios, ora nos dentes. Os seus olhos através dos fios, permanecendo em mim.
Eu não te recompunha porque era no desarranjo aquela intimidade.
Como a natureza te fez bonita, toda linhas de traçado espesso – em movimento. As imprevisíveis combinações de “instantes-borboleta”.
Nem me passou pela cabeça prender-te as asas entre os dedos. Eu sei que não há nada que se possa verdadeiramente reter.
E não há nenhuma segurança em amar.

 

25 de fevereiro de 2005

por motivos que expliquei ou tentei explicar em um post anterior, resolvi trazer os textos antigos pra cá, deixar tudo juntinho, encarar a vergonha, contemplar o passado que nunca deixa, ele também, de viver aqui e agora. vou buscar um, ou mais por dia, e trazer quando houver correspondência de datas: dia e/ou mês. esse será o meu pretexto e a minha brincadeira. 😉

o nosso último beijo foi igual ao primeiro

É nessa solidão interna que mora a sua companhia. São inúmeras situações em que estou só, em que estou com você, em que estou dupla de mim. Dupla de mim sou o esforço da razão em barrar qualquer fluxo da fantasia:
Nas sua doçura não ler amor, mas fragilidade.
Na sua procura não ler saudade, mas momentâneo e recorrente tédio do cotidiano.
No teu desejo só ler desejo.
Na tua confusão ler a força das tuas escolhas vencendo.
As escolhas são enxurradas.
Nossa última conversa não parecia uma última conversa. Mas foi.
Nosso último beijo não foi igual ao primeiro. Isso fui eu que imaginei.

posted by tereza @ 16:12

alumbramentos

esta casa está vazia

LIQUIDAÇÃO

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.

(C.D.A.)

a epígrafe/epitáfio: a postagem última (e por fim pra sempre primeira), de Guilherme Freitas, em um blog antigo, coletivo e findo.