saudade

hoje sonhei com uma morte que quero muito evitar, e que talvez por isso mesmo não pare nunca, há anos, de me assombrar. foi um sonho ruim, não poderia ser diferente, mas não foi só isso.

tentei fazer um chá às pressas para que você se sentisse melhor, e as minhas mãos trocadas derrubaram toda a água fervente em uma vasilha com água suja, na pia. não havia tempo para o chá, eu entendi.

corri de volta até a sala onde você terminava de se recostar, e te beijava de um jeito desajeitado, em diferentes e descobertas partes do corpo. não encontrava um gesto suficiente até parar nas suas mãos, na sua mão. e tive, pela primeira vez, a força e generosidade de forjar uma certeza para o outro.

apertei a sua mão bem forte para te dar a segurança, que nem eu mesma jamais tive e não sei se terei, de que será suave e de que o depois será um lugar bem bonito, que eu mesma povoei com as melhores coisas que tenho em mim, e que me foram dadas por você.

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as cartas

Pina, eu nunca quis evocar os mortos. quando era pequena eu fechava bem forte os olhos diante dos meus fantasmas, e negociava: “eu te respeito, você me respeita, portanto, vá embora”. sempre deu certo, eu nunca soube se eles alguma vez estiveram por lá. se sim, devem ter ficado muito convencidos ou comovidos com os meus argumentos. eu não tenho medo da sua volta e nem dor pela sua partida. eu te fiz pássaro, pluma, dente-de-leão, semente, vento, nada. você foi embora evaporando, suave suave, nem gente você é mais. nem monstro, impossível. é só gente e monstro que eu temo. por outro lado, é de gente que eu mais preciso e por isso gosto tanto das cartas, sobretudo das que não escrevi. e estou gostando tanto de ficar sob o seu olhar quieto, acolhedor da feiúra e fazedor de beleza.