12 de dezembro de 2005

“How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d…” (Eloisa to Abelard, Alexander Pope)

Um cheiro doce.
Tinha uma série de lembranças cansadas que outrora eram a única fonte vital pulsando ofuscada pelo opaco espectro de luz branca do presente.
– Do que você mais gosta?
A moça fazia perguntas difíceis.
E se pudesse parar de pensar?
Achava que sentia alguma coisa parecida com… Nada.
E o nada era além do cansaço, a vontade de pensar o viver outra coisa.
Tudo aquilo: comer, conversar, dançar, ler, amar… Eram como uma mesma coisa e tudo era ameno e bom, ou mais bom do que ruim.
– O céu deve ser essa pasmaceira…
Sim, isso menos as novas vontades. 
As novas vontades não levavam para o céu, porque lá já teria morrido.
Abriu os olhos nublados, eram muito iguais os olhos dele, os mesmos.
E era de repente e devagar que ele acontecia (de) novo.
– Tudo se entende de mil maneiras…
As sensações existiam assim, por si, estava no mundo. E a intenção dos gestos era a cumplicidade acidental, um truque de mágica qualquer.
– Me dá sua mão?

 

23 de maio de 2005

see you soon

Ana abriu os olhos e não estava em casa. A noite anterior não tinha terminado ainda. Nem se sentia igual, nem isso era estranho porque já havia construído aquele momento-espaço muitas vezes em imaginação.

Estava emaranhada nos cabelos dele. Como pode ter esquecido de sentir o cheiro?
Como eram os cabelos dele? Essas coisas que não se diz…
Podia estar todo tempo no cuidado e na carícia dos fios, mas não era necessário, os pensamentos é que estavam embaraçados.
Se ela fosse assim outra pessoa, gostaria dela?
Estava muito emaranhada nos cabelos dele e não se sentia sufocada, porque era macio.
Uma trama espiralada de vontade e contravontade.
A ponta do barbante que deveria estar amarrada na sua cintura estava equivocadamente presa ao coração – que estúpida tinha nascido – toda vez que a outra ponta tensionava o fio, denunciando uma saída do labirinto, seu peito apertava e doía.
Se ele também abrisse os olhos ela teria que ir embora – cheios d’água.
Queria demorar ali um pouco mais antes de começar a viver de novo.

16 de maio de 2005

enquanto seu Tempo não vem eu corro o presente e recorro ao passado.

INVERNO

Ana abriu os olhos, ainda bem que lá fora não havia silêncio absoluto, os pensamentos ecoavam insistentes apenas no espaço pequeno e grande da sua caixa craniana.
A sua imagem no espelho não era bonita como no sonho. O rosto estava inchado e o corpo era magro ou gordo? Os corpos são mais bonitos em movimento e quando se tocam. Era por isso então que ela sentia tanto frio?
Longas horas se arrumando cuidavam que alguma graça pudesse surgir ao longo do dia, surpreendente aos olhos de alguém.
Havia uma lista de esforços diários a serem cumpridos.
Ficaria exposta na vitrine da rua, era de gosto aquele jeito de se arrumar(?), queria muito que alguém comprasse.
Como era mesmo aquela música que falava sobre isso?
Se tudo é natural por que dói tanto?

O menino no sonho tinha muitos rostos, melhor apagar todos? Trazia alguma coisa nas mãos e as próprias mãos, uma esfera brilhante e frágil, núcleo duro de um coração, qualquer?
Mãe, isso passa? E não sabia se era capaz de acreditar na resposta. Voz macia a de mãe.
Gostaria de estar pensando em outra coisa quando se lembrou:“há algo que jamais se esclareceu, onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei…”

 

abril de 2006

eu já contei aqui sobre o não-abril no outro blog, em 2006. a amiga ana paula perche me mandou esses dias a reflexão sobre o “abril ausente” dela, que por sinal não tem nada nada de ausência:

Com bastante atraso….resolvi refletir sobre abril de 2006….

bom, não sou boa com as palavras…..mas é que achei o tema interessante, pois é um mês que me marcou algumas vezes…

enfim….é isso aqui:

Abril de 2006…..

Estranho….o nada de abril para mim, está tão diretamente ligado a abril de 2005, que ao ler o seu post, apenas no final percebi que falava de abril de 2006. Estranho, né?! Bom, estranho mesmo foi abril de 2005. Ali estava apaixonada, ali estava enganada….enfim….passou…

Abril de 2006, hum…bom, não estava apaixonada, mas havia alguém apaixonado por mim, mas não dei muita atenção a esse amor….

Caramba….passaram-se seis anos! Seis Anos! Como passou!

E aquele amor que conheci em abril de 2006, agora está aqui ao meu lado….abri meu coração, deixei as lembranças do passado de lado, e resolvi que nesse abril eu seria feliz!

abril ausente

não houve abril em 2006 no outro blog. no exercício da imaginação há muitas causas possíveis, talvez pudéssemos diminuí-las se pensarmos em causas prováveis, das mais prosaicas às mais dramáticas. multiplique tudo isso por seis, o número de colaboradores, mesmo que na época fôssemos em menor número. o tempo justifica essa imprecisão.

o amigo márcio yonamine arriscou dizer que estávamos todos apaixonados. talvez a ideia da vida prescindindo do texto, da interpretação, da expressão além, a vida sendo e só. em outras palavras, estávamos todos vivos e vivendo. e isso, de um jeito ou de outro, só pode ser certo.

abril não é férias, não é começo de ano, não é fim de ano. abril quase não é aniversário de nenhum de nós. a páscoa ocupa uns poucos dias, vamos chamar de uma semana: viagem, família, comida, chocolate, outras coisas. abril é meio de semestre, mas eu ousaria dizer que por lá ninguém era assim tão aplicado.

em 2006, nesse mês, ninguém quis escrever, ou publicar. e estávamos todos, sem dúvida, fazendo alguma coisa.