lembrança

às vezes parece tão fácil esquecer o poema e o poeta, mas não devia. às vezes é realmente difícil suportar a poesia.

   Sob  o  toque da luz do dia, sob seus dedos papoulas
em  sua  primeira  floração  meu  corpo inteiro se abre é  o
amanhecer, após uma longa noite durante a qual ela anes-
tesiou  cinco  soldados – ondas  assomam,  viajam,  todos
para  amputações  esplêndidas,  opalescentes,   do centro
do  coração  até  o  ventre,  pequenos  feixes  de   agulhas,
(dois tinham morrido). As papoulas parecem quentes, opiá-
ceas, uma mancha na encosta, disse ela,  generosamente
distribuídas parecem sangue para minha delícia, por  toda
extensão da pele.

 

Cláudia Roquette-Pinto

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19 de outubro de 2005

nos poemas de Adélia Prado cabem, a um mesmo tempo, a minha espiritualidade difusa e o meu amor doente.

Poema começado no fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.