são avós

eu reconheço a ousadia e disparate de querer reproduzir aqui os poemas do arnaldo antunes, desrespeitando quase que completamente o seu aspecto gráfico e tão essencial. alguns dirão que isso é uma besteira, outros mais puristas ou sérios dirão que eu nem mesmo mereço qualquer atenção. com estes dois eu concordaria em parte. e mesmo assim, em alguns locais e ocasiões a gente acaba fazendo praticamente só o que quer. é o meu caso aqui e agora. o livro é “as coisas” e se eu fosse você, eu ia lá. o poema é uma homenagem que dispensa explicações.

Neto e neta são

netos, no mas-

culino. Filho e filha são filhos,

no masculino. Pai

e mãe são pais, no

masculino. Avô e

avó são avós.

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“2 ou + corpos no mesmo espaço”

eu adoro o arnaldo antunes, mesmo muito. se eu encontrasse ele na rua, por acidente – ele que mora aqui do lado -, ou se alguém me apresentasse a ele, assim inesperadamente, eu acho que ia chorar. sem afetação, chorar, simples assim, ridículo e simples. eu encontrando o meu amigo de infância, o amigo de infância perdido. se hoje fosse quando eu era criança, e se eu não fosse a criança besta que fui, eu iria até ele, na primeira série, quem sabe, e diria assim: “quer brincar de palavras comigo?”. Ele quer, é claro, e saímos de mãos dadas, eu muito muito contente.

houve uma época da minha vida em que eu estive triste triste triste, e estar na tristeza, assim todo dia, dia a dia, parece que não tem fim. a ironia é que eu tinha acabado de ganhar a alegria de entrar na faculdade, o curso que eu mesma escolhi. e eu dormia copiosamente em todos os filmes. eu não suportava a violência dos filmes – tanto bonito e feio explodindo na minha cara. e então, naquele lugar conhecido e sempre novo, quase que só pude encontrar algum alento nos livros, aquele monte de gente lá dentro, esperando o meu momento, todos falando baixinho e suave, eu podendo ser bem quietinha, eu não fingindo nadinha de nada – tanto segredo sem susto dos outros.

nessa época eu li muito arnaldo antunes, andei com ele pra cima e pra baixo, ou para dentro e para fora. e no meio de tanto texto que eu nunca esqueci, esse daqui volta e meia comigo está. enquanto eu acompanhava o inventário das tristezas, sem me dar conta eu também brincava de escolher, feito uma criança machucada agarrando a diversão possível:

o que pode ser mais triste –
    um tigre de circo, alguém
    perdido?
 uma promessa quebrada
 como um brinquedo, um segredo
 contado, terremoto, lar
 desfeito, desejo (medo)
 desperdiçado?
defeito, braço direito
 amputado, fósforo
molhado?
 o que pode ser mais triste?
vaca, chuva, trapo?
criança calada, escravo?
poça, lago, vidro (amor
 não correspondido)
 embaçado?
palavra errada, guerra, marte?
pêndulo? empate?
feiúra, cegueira,
fim de festa, falta
de vontade?
(uma coisa triste de)
 verdade?

 

alumbramentos

esta casa está vazia

LIQUIDAÇÃO

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.

(C.D.A.)

a epígrafe/epitáfio: a postagem última (e por fim pra sempre primeira), de Guilherme Freitas, em um blog antigo, coletivo e findo.