não se pode amar demais

não se pode amar demais.

o dé sempre diz (talvez às vezes, ou algumas vezes, mas a invenção é minha, então: licença poética! esse dé que eu também invento) que não existe “te amo muito”. como se o “te amo” fosse assim imensurável, ou a expressão do imensurável, e não comportasse qualquer noção de quantidade ou intensidade vinculados. o “muito” é a sobra do que não tem medida.

e eu acho que o “muito” é aquela sensação que fica insatisfeita e angustiada no peito – no peito mesmo, quase física – quando a gente está sentindo alguma coisa além do que consegue expressar. o tão bom que quase dói, ou dói mesmo. o ter em face do seu oposto complementar e inevitável: o não ter, ou o perder.

de semelhantes, a palavra e o sentimento têm esse lugar de sobra: incompletos e insuficientes. incompreensíveis eles permanecem ali, um para o outro, embora nunca nunca coincidentes, afinal. querer ser um sem nunca poder, o impossível. a tentativa de viver o amor e conformá-lo é um desespero bonito.

eu sempre digo que não existe o desamor, o sentimento que de fato se desfaz. eu tolero, no máximo, a ideia do não-amor, mas um padre muito bom me convenceu ainda menina que esse segundo também está fora de cogitação na nossa humana condição.

eu não abro mão da minha história, se você passou por aqui, de um jeito ou de outro, aqui ainda está. tanta coisa é “muito” na falta de precisão possível.

não se pode amar de menos.