saudade

hoje sonhei com uma morte que quero muito evitar, e que talvez por isso mesmo não pare nunca, há anos, de me assombrar. foi um sonho ruim, não poderia ser diferente, mas não foi só isso.

tentei fazer um chá às pressas para que você se sentisse melhor, e as minhas mãos trocadas derrubaram toda a água fervente em uma vasilha com água suja, na pia. não havia tempo para o chá, eu entendi.

corri de volta até a sala onde você terminava de se recostar, e te beijava de um jeito desajeitado, em diferentes e descobertas partes do corpo. não encontrava um gesto suficiente até parar nas suas mãos, na sua mão. e tive, pela primeira vez, a força e generosidade de forjar uma certeza para o outro.

apertei a sua mão bem forte para te dar a segurança, que nem eu mesma jamais tive e não sei se terei, de que será suave e de que o depois será um lugar bem bonito, que eu mesma povoei com as melhores coisas que tenho em mim, e que me foram dadas por você.

Anúncios

não se pode amar demais

não se pode amar demais.

o dé sempre diz (talvez às vezes, ou algumas vezes, mas a invenção é minha, então: licença poética! esse dé que eu também invento) que não existe “te amo muito”. como se o “te amo” fosse assim imensurável, ou a expressão do imensurável, e não comportasse qualquer noção de quantidade ou intensidade vinculados. o “muito” é a sobra do que não tem medida.

e eu acho que o “muito” é aquela sensação que fica insatisfeita e angustiada no peito – no peito mesmo, quase física – quando a gente está sentindo alguma coisa além do que consegue expressar. o tão bom que quase dói, ou dói mesmo. o ter em face do seu oposto complementar e inevitável: o não ter, ou o perder.

de semelhantes, a palavra e o sentimento têm esse lugar de sobra: incompletos e insuficientes. incompreensíveis eles permanecem ali, um para o outro, embora nunca nunca coincidentes, afinal. querer ser um sem nunca poder, o impossível. a tentativa de viver o amor e conformá-lo é um desespero bonito.

eu sempre digo que não existe o desamor, o sentimento que de fato se desfaz. eu tolero, no máximo, a ideia do não-amor, mas um padre muito bom me convenceu ainda menina que esse segundo também está fora de cogitação na nossa humana condição.

eu não abro mão da minha história, se você passou por aqui, de um jeito ou de outro, aqui ainda está. tanta coisa é “muito” na falta de precisão possível.

não se pode amar de menos.

25 de fevereiro de 2005

por motivos que expliquei ou tentei explicar em um post anterior, resolvi trazer os textos antigos pra cá, deixar tudo juntinho, encarar a vergonha, contemplar o passado que nunca deixa, ele também, de viver aqui e agora. vou buscar um, ou mais por dia, e trazer quando houver correspondência de datas: dia e/ou mês. esse será o meu pretexto e a minha brincadeira. 😉

o nosso último beijo foi igual ao primeiro

É nessa solidão interna que mora a sua companhia. São inúmeras situações em que estou só, em que estou com você, em que estou dupla de mim. Dupla de mim sou o esforço da razão em barrar qualquer fluxo da fantasia:
Nas sua doçura não ler amor, mas fragilidade.
Na sua procura não ler saudade, mas momentâneo e recorrente tédio do cotidiano.
No teu desejo só ler desejo.
Na tua confusão ler a força das tuas escolhas vencendo.
As escolhas são enxurradas.
Nossa última conversa não parecia uma última conversa. Mas foi.
Nosso último beijo não foi igual ao primeiro. Isso fui eu que imaginei.

posted by tereza @ 16:12