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noé e naná

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saudade

hoje sonhei com uma morte que quero muito evitar, e que talvez por isso mesmo não pare nunca, há anos, de me assombrar. foi um sonho ruim, não poderia ser diferente, mas não foi só isso.

tentei fazer um chá às pressas para que você se sentisse melhor, e as minhas mãos trocadas derrubaram toda a água fervente em uma vasilha com água suja, na pia. não havia tempo para o chá, eu entendi.

corri de volta até a sala onde você terminava de se recostar, e te beijava de um jeito desajeitado, em diferentes e descobertas partes do corpo. não encontrava um gesto suficiente até parar nas suas mãos, na sua mão. e tive, pela primeira vez, a força e generosidade de forjar uma certeza para o outro.

apertei a sua mão bem forte para te dar a segurança, que nem eu mesma jamais tive e não sei se terei, de que será suave e de que o depois será um lugar bem bonito, que eu mesma povoei com as melhores coisas que tenho em mim, e que me foram dadas por você.

o sussurro persistente do vento no deserto

a tenda estava posta no meio do nada. quem há de dizer que não?

a palavra soprada era relembrar.

a entrada era de manuseado tecido: a saia terminando sua caída no quadril, o corpo deslizando sob o lençol, a primeira mulher adentrando a tenda.

o espaço oferecia muito chão e poucas cores, tampouco a natureza lá fora tinha mais que um céu azul-dia, ao menos é o que viam esses olhos desabituados: sépia, areia, cobre, tanto marron e branco encardido. o menino branco quase louro sentado no tapete vestia única túnica e sequer moveu os olhos, fixos e serenos à entrada da mulher.

a palavra soprada era remissão.

a simplicidade da recepção não intimidou a visitante, mas o desconforto estava à espreita: outra parede-pano, ao ser tocada, revelou a mulher original. descobertas pernas esguias e o cabelo escuro e longo, levemente anelado. foi só um golpe de vista antes do escorrer do algodão, de volta à gravidade inicial, bloqueando a visão: não.

a palavra soprada era respeito.

o moço-menino-oráculo, só ele  podia entender a palavra incompreensível: à maledicência, ele escolheu o não-dizer-nada.

a palavra soprada era reinventar.

algumas amizades terminam aos gritos loucos, outras permanecem na paz e no silêncio do nunca mais.

a palavra soprada era re-esquecer.