mrs. dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores

foi um pequeno achado o grifei num livro, segredos e descobertas com palavras, compartilhados. resolvi dividir também o prazer da leitura de agora, aqui:

“Podiam ficar séculos sem se ver, ela e Peter, ela jamais lhe escrevera, e as cartas dele eram por demais áridas; mas de repente algo a arrebatava e se estivesse aqui comigo, o que ele diria? — certos dias, certas paisagens o traziam de volta, calmamente, sem a antiga amargura; o que talvez fosse a recompensa por ter amado as pessoas; e elas retornavam em uma bela manhã em St. James`s Park — bem que retornavam.”

(Mrs. Dalloway, Virginia Woolf, p.13 – editora Cosac Naify)

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as horas

querido,

desculpe-me pela demora em responder. confesso que a notícia súbita de sua partida e para tão distante destino foi arrebatadora, e precisei desse tempo para conter os primeiros impulsos irracionais, doloridos e agressivos. não saberia como me portar diante de você na plataforma da despedida, e só por isso posso perdoá-lo. espero que esta carta te encontre com o coração mais tranquilo. eu trato de aquietar o meu.

aqui, já fiz inúmeros cenários. a áfrica das minhas leituras me causa temor e fascínio: um mosaico da imaginação itinerante. será que receberei postais das suas vistas preferidas?

não se preocupe com os seus. os cachorros já deixaram de latir a minha chegada, e agora abanam as caudas com tanta energia que temo que fiquem descadeirados até o seu retorno. eles fazem a festa da saudade. e os cactos permanecem intocados, conforme me pediu. eles desejam o abandono do deserto e assim eu os deixo sobreviver, sozinhos e resistentes. penso se vocês têm isso em comum e fico longos minutos a observá-los, refletindo sobre sua ausência.

talvez eu inveje essa aventura, mas não dê atenção ao meu ressentimento. tudo se dissipará ao som das suas histórias.

nenhuma espera será demais.

até breve.

as horas

Sexta-feira, Junho 13, 2003

sra dalloway,

estou de partida, vou para a africa. tentarei escrever se puder. fiz a barba e raspei a cabeça. tomei vacinas, muitas, coloridas até. minha mala é para dias, mas seu conteúdo é para anos. vou deixar aqui o endereço e o telefone mais próximo de onde ficarei até meados de junho. depois disso, não sei mais. as horas que demorei só para escrever essas linhas demonstram a turbulência do meu coração. guarde biscoitos e café para minha volta, mas se eu demorar os dê para outra pessoa. não deixe de esquecer dos cactos.

toda vez que puder, deixe o portão aberto para os cachorros passearem e certifique-se que a amoreira não adoeça. os morangos estão perdidos. queime todas as minhas cartas, vou reescrevê-las nos meus tempos ociosos. preciso ir agora. os trens são pontuais quando partimos.

posted by Marcio at 3:08 PM

as horas

querido,

sim é este momento de junho. e me assustei ainda há pouco com as baixas temperaturas e a chuva incessante que se precipitou sobre nós. hoje faz um sol conciliador desse lado da cidade, também por aí? por isso vou tomar a rua apesar dos afazeres domésticos e das tarefas escolares que ainda não terminei, mesmo com a idade que não deixa de chegar, dia a dia.

é este o momento de junho, novamente. e a crise nunca nos deixa, não é? não há desespero por aqui, mas sabe como me entristeço de forma insistente, ridícula e até irritante com a sombra ao lado, ou à espreita.

deixarei a elegância e beleza dos suéteres e carregarei os casacos pesados e mais eficientes, é preciso sobreviver. são o exoesqueleto esperando para ser casca morta mal desponte a primavera. que tudo passa sabemos que não é verdade, mas também sabemos que não é mentira. e assim estou em paz.

as horas

Quarta-feira, Junho 04, 2003

sra. dalloway,

é este momento de junho. a cidade está alvoraçada, desvairada. começa a fazer frio e todos correm para suas casas ou lugares de chocolate quente. a sra. ainda está indecisa se compra suéteres ou casacos mais caros. o desemprego está alto e não convém gastar além da conta. é este momento de junho. uma celebração para os que podem; uma desgraça para os que não. vou te beijar a testa agora, sra. dalloway, para dizer que tudo passa.

posted by Marcio at 12:08 AM

as horas

Sábado, Maio 17, 2003

Querido,
Estou tão cansada que quase não posso alegrar-me em ver-te. Minha cama é um bálsamo, o calor regenera minhas feridas.
Abro um espaço se você quiser deitar. Prefiro que fique quieto ou diga coisas inimagináveis, mas sérias e pouco perturbadas.
Gostaria de poder me surpreender com um gesto… Isso já aconteceu, ternura é um sentimento raro.

posted by Tereza at 2:47 PM

as horas

márcio yonamine, estou aqui refazendo essa história, que também é sua quando quiser. e mesmo sem querer. que mágica embaralhar as datas no truque do reconto, não é!? te escrevo novas e velhas mensagens.

Sábado, Maio 31, 2003

sra. dalloway,

se me avisasse antes que vinha, eu teria arrumado a bagunça e preparado o quarto com lençóis mais frescos. teria aberto todas as janelas que ultimamente tenho mantido cerradas por causa do frio e outras inseguranças. poderia ter preparado um banho, mas não sei que óleos e bálsamos costuma usar; ficaria por sua conta. mas repentina assim, nem pude avisar que o sofá em que está deitada é duro e incomoda o cóccix e que não tenho ainda vasos bonitos para as suas flores escandalosas. mas se ficar um pouco mais, posso preparar um café diferente que aprendi por aí, um café com quase gosto de café.

posted by Marcio at 10:43 AM